Dééfait emerge do underground europeu com um EP ritualístico de noise rock em estado de transe

Em algum ponto entre o krautrock, o noise rock, o psicodelismo em decomposição e um proto-punk pagão, Dééfait cria música como quem realiza invocações: em transe, em loop e sem rede de proteção. Nascido do eixo caótico que liga a Cidade do México aos porões da periferia parisiense, o grupo molda um noise rock sufocante, físico e visceral, que se impõe mais como experiência sensorial do que como canção convencional.

Formado em 2023, o Dééfait reúne os irmãos Valero, com Lucas na guitarra e Pablo, ex-Pays P, na bateria, além de Enir Da no baixo, Grégoire Couvert na guitarra e Ric Lara, vocalista mexicano e performer cuja entrega vocal alterna entre o sussurro, a declamação e o grito, transitando entre inglês, espanhol e francês. Ativo na cena underground parisiense desde 2024, com passagens por espaços como La Mécanique Ondulatoire, Le Cirque Électrique e Nouveaux Sauvages, o grupo construiu reputação por apresentações de tensão quase alucinatória, onde o corpo e o som parecem operar no limite.



O primeiro EP homônimo do Dééfait é anunciado como um verdadeiro rito bruitista. São seis faixas longas, concebidas como litanias pagãs, que evitam qualquer forma de conforto melódico. Não há refrões fáceis ou estruturas previsíveis, apenas um fluxo sonoro denso que se repete, se dobra e se estica até a exaustão. Previsto para novembro de 2025 pelo selo Ici, d’ailleurs, o trabalho se apresenta como um monólogo habitado, uma espécie de câmera inserida em um corpo em combustão contínua.

Desde a faixa de abertura, “We Love Each Other So Much That We Won’t Belong To Any Species Anymore”, o EP propõe um amor que extrapola seus limites tradicionais e se transforma em pacto orgânico, quase um ritual de saída da espécie. Ao longo do disco, desejo, sacrifício e alienação se entrelaçam em imagens sonoras instáveis. “Molokh ∞” soa como uma oferenda a uma divindade carnívora, enquanto “BONDBONDBOND” mergulha em um claro-escuro sensual e delirante. “Al’Ether”, um dos pontos altos do repertório ao vivo, explode em dança convulsiva e guitarras saturadas, e “Wow! Ferreri Cooked For Us” encerra o EP como uma farsa negra, mastigando e regurgitando palavras até o colapso.

Gravado em meio ao caos do DIY e mixado como uma obra crua, o disco captura o Dééfait em seu estado mais puro. O som é sujo, elétrico e profundamente habitado, evocando referências como Terminal Cheesecake, Boredoms, Nick Cave na era Birthday Party, CAN dissecado em uma mesa de autópsia ou um giallo sob luz estroboscópica. Ainda assim, o que surge é uma identidade singular, que se anuncia como um dos projetos mais inquietos do noise rock contemporâneo. Este EP é apenas o início: um álbum completo já está previsto para 2026, prometendo expandir ainda mais esse universo de excesso, transe e combustão sonora.

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Alessandro Bob
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