Se 2025 não foi exatamente um ano histórico para o black metal, também esteve longe de ser irrelevante. Em meio a lançamentos mornos e expectativas frustradas, algumas obras emergiram das trevas com força suficiente para lembrar por que o gênero segue tão vital — e perigoso.
Claro, muita gente mergulhou em In Devastation, do supergrupo Sinsaenum, ou conferiu o ataque blackened de Gold, do Scour, projeto liderado por Phil Anselmo (Pantera).
Também foi impossível ignorar a produtividade quase sobrenatural de Maxime Taccardi, com Nightmare Detective e Oni, do Kyūketsuki, além de The Streams of Sorrow, do Osculum Serpentis.
Mas o underground é vasto — e implacável. Abaixo, destacamos cinco álbuns que talvez tenham passado despercebidos no seu radar em 2025.
ENTHRONED – Ashspawn
O veterano Nornagest, frontman do Enthroned, entrega em Ashspawn uma performance vocal simplesmente aterradora. Versátil e absolutamente dominante, ele conduz o álbum com autoridade ritualística.
Ao seu lado, Menthor assume bateria e percussão com precisão cirúrgica, enquanto T. Kaos — músico que Nornagest desejava há tempos na formação — mostra domínio total nas guitarras e no baixo.
O processo de composição foi intenso. O trio trabalhou obsessivamente, da manhã à noite, lapidando cada detalhe. Nornagest ainda colaborou com o escritor ocultista Gilles de Laval na construção do conceito lírico.
A arte ficou a cargo do renomado artista José Gabriel Alegría Sabogal, conhecido por trabalhos com o Whoredom Rife, e o próprio Nornagest — que possui mestrado em artes visuais — também contribuiu visualmente.
Resultado: um álbum que equilibra erudição ocultista e brutalidade sonora com maturidade impressionante.
ENEVELDE – Pandemonium
Embora 100 cópias em fita tenham circulado em 2024, o selo Terratur Possessions oficializou Pandemonium em 8 de abril de 2025 — momento em que o álbum realmente caiu nas mãos de fãs e jornalistas.
Enevelde é o projeto solo de Brage Kråbøl, também conhecido por seus trabalhos no Misotheist, Diabolus e no coletivo familiar Kråbøl. Em Pandemonium, ele reafirma seu status como um dos compositores mais intrigantes da nova geração.
Hipnótico, agressivo e ao mesmo tempo sofisticado, o álbum exige atenção — e repele o ouvinte na mesma medida. Kråbøl entrega riffs incendiários e vocais carregados de fúria controlada.
Em meio a tantos músicos competentes na cena atual, poucos carregam a chama do gênero com tanta convicção quanto ele.
RITUALMORD – This Is Not Lifelover
A lenda Kim Carlsson, conhecido por seu trabalho no Lifelover e Hypothermia, retorna com This Is Not Lifelover sob a bandeira do Ritualmord.
O título pode soar provocativo, mas o disco vai muito além de qualquer comparação nostálgica. Lançado em meio às celebrações de 20 anos do Lifelover, o álbum é visceral, emocionalmente devastador e artisticamente maduro.
Carlsson divide os créditos com 1853, responsável por letras e vocais adicionais, e com o produtor belga Déhà, que ajudou a materializar as composições em estúdio.
O impacto emocional é profundo. Denso, doloroso e transformador — talvez o lançamento mais intenso do ano dentro do espectro melancólico do black metal.
MÜTIILATION – Pandemonium of Egregores
Enquanto muitos já encerravam o ano, os franceses do Mütiilation surpreenderam com o lançamento de Pandemonium of Egregores, disponibilizado online no Natal e oficialmente lançado em 26 de dezembro.
Após o retorno com Black Metal Cult (2024), a banda reafirma seu compromisso com um black metal absolutamente intransigente.
Em tempos de produções excessivamente polidas e tendências diluídas, o Mütiilation mantém viva a essência crua e misantrópica do gênero.
Em meio ao “teatro de fantoches para o qual os plebeus são convidados a temer”, como sugere a atmosfera do álbum, a banda entrega um lembrete brutal: o black metal não nasceu para ser confortável.
SARKOM – Exceed In2 Chaos
Com quase 50 minutos de duração, Exceed In2 Chaos é uma jornada intensa pela chamada “dor organizada”. Totalmente composto por Erik Unsgaard, o álbum mostra um Sarkom inspirado e ousado.
A formação conta com Galaaen nas guitarras, Somby nas guitarras e baixo, além do renomado baterista Dominator.
Desde 2004, o Sarkom constrói uma trajetória sólida no black metal norueguês, e este sucessor de Anti-Cosmic Art (2016) mantém o nível elevado. O álbum ainda conta com participações especiais como Ronni Le Tekrø, do TNT.
As letras de Unsgaard atacam sem piedade figuras que ele classifica como “Bottomfeeders”, com sarcasmo e agressividade afiadas.
Destaque também para o single Enter as Fool — Exit as Beast, cujo videoclipe, dirigido em colaboração com Ksenia Hinderson, contou com apoio de Nagash (ex-Dimmu Borgir, Troll) e rendeu convite ao Berlin Music Video Awards.
Black Metal: 2026 Já Promete
Se 2025 teve seus altos e baixos, 2026 já começa com expectativas elevadas. O álbum autointitulado do supergrupo underground Diabolus, Mecum Semperterne!, composto por Tor-Helge Skei, vem sendo apontado como uma das obras mais impressionantes do período recente.
As trevas seguem férteis.
E você? Algum desses passou batido no seu radar?
Por Maurício Almeida @mau_almeida85
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