Ingested transforma crise em brutalidade e entrega um dos discos mais pesados da carreira com Denigration

O Ingested chega a Denigration em um momento que poderia ter desestabilizado qualquer banda. Poucos meses antes do lançamento, o grupo britânico precisou lidar com uma mudança brusca de formação após a saída do vocalista Josh Davies, desligado depois de alegações graves. Em vez de adiar tudo, recalcular rota ou transformar o lançamento em novela pública, a banda tomou uma decisão direta: regravou os vocais principais e manteve o cronograma.

Sean Hynes e Andrew Virrueta assumiram as vozes, preencheram as lacunas e ajudaram a manter o álbum de pé. E o mais impressionante é que Denigration não soa como um disco remendado às pressas. Pelo contrário. Soa como uma banda reagindo ao caos com mais violência, mais foco e ainda menos paciência para concessões.

Referência dentro do brutal death metal, do slam e do deathcore, o Ingested construiu uma carreira marcada por agressividade, técnica e uma habilidade muito própria de circular entre diferentes vertentes extremas sem perder identidade. A banda nunca ficou totalmente presa a uma cartilha. Mesmo dentro da brutalidade, sempre houve espaço para mutação.

Nos últimos trabalhos, especialmente Ashes Lie Still e The Tide of Death and Fractured Dreams, o grupo já vinha abrindo espaço para atmosferas mais densas, momentos mais melódicos e uma abordagem menos previsível. Mas Denigration parece virar outra chave. Aqui, o Ingested não apenas volta a soar brutal. Ele parece querer esmagar qualquer dúvida sobre sua capacidade de seguir em frente.

O álbum é mais rápido, mais sujo, mais sombrio e mais agressivo do que boa parte do que a banda lançou anteriormente. Há uma sensação constante de colapso, como se cada faixa tivesse sido construída para testar o limite físico do ouvinte. Os riffs de Sean Hynes aparecem entre os mais violentos de sua carreira, carregados de sujeira, peso e um senso de ataque quase sufocante.

Logo na abertura, “Dragged Apart” deixa claro que Denigration não pretende aliviar nada. A faixa funciona como uma declaração de guerra, combinando brutal death metal, pancadas de deathcore e passagens slam sem pedir desculpas para purista nenhum. É o tipo de som que não tenta parecer bonito, sofisticado ou elegante. Ele quer esmagar.

“Watch You Fold” aumenta ainda mais o estrago com a participação de John Gallagher, do Dying Fetus. A presença dele reforça o caráter punitivo da faixa, que entrega uma saraivada de guturais, riffs de impacto e aquela sensação de violência controlada que separa brutalidade real de barulho genérico.

E esse é um ponto importante: Denigration é um disco hostil, feio e esmagador, mas não preguiçoso. O Ingested entende que peso por peso não basta. As músicas precisam ter dinâmica, variação e identidade. Faixas como “Merciless Reflection”, com participação de Damonteal Harris, do PeelingFlesh, e “Cold Sun” mostram a banda torcendo sua própria fórmula em direções ainda mais grotescas, sem abandonar o poder direto que sempre sustentou sua base de fãs.

O disco também parece carregar uma resposta indireta à chamada “polícia do riff”. O Ingested não demonstra interesse em separar brutal death, slam e deathcore em gavetas limpas. Denigration mistura tudo com autoridade, como quem sabe exatamente de onde veio, mas não aceita ser limitado por expectativa de cena.

“Steel Toe Truth” e “Stitch By Stitch” se destacam justamente por mostrarem como os novos vocais funcionam dentro desse contexto. Mesmo regravados em um cenário emergencial, eles não soam inferiores ou provisórios. Há presença, força e uma entrega que sustenta o impacto das composições.

No fim, Denigration acaba funcionando como mais do que um novo álbum. É uma prova de sobrevivência. Um registro de uma banda que poderia ter perdido o eixo diante de uma crise interna, mas escolheu responder com o disco mais violento possível.

E talvez essa seja a mensagem mais clara aqui: ninguém é maior do que a máquina quando a máquina continua destruindo tudo no caminho.

O Ingested não apenas sobreviveu ao baque.

Ele voltou mais brutal.