1986 foi um ano absurdo para o metal: 10 discos que provam isso

1986 não foi apenas “mais um ano bom” para o heavy metal. Foi um daqueles momentos em que várias cenas pareciam explodir ao mesmo tempo.

Nos Estados Unidos, o thrash metal atingia um nível histórico com Metallica, Slayer e Megadeth lançando discos que ainda hoje são tratados como pilares do gênero. Na Europa, o Iron Maiden levava sua sonoridade para um território mais futurista, o Kreator colocava a Alemanha no mapa da brutalidade e o Candlemass ajudava a definir o doom metal épico. No Brasil, Sepultura e Dorsal Atlântica mostravam que a coisa pesada também estava acontecendo por aqui, mesmo longe da estrutura das grandes cenas internacionais.

O resultado é simples: 1986 virou um daqueles anos que parecem mentira quando a gente olha em retrospecto. Muito disco importante saiu praticamente no mesmo intervalo, cada um empurrando o metal para um lado diferente.

Abaixo, separamos 10 álbuns lançados em 1986 que ajudam a explicar por que esse ano continua sendo lembrado como um dos mais fortes da história do metal.

1. Metallica – Master of Puppets

Lançado em 3 de março de 1986, Master of Puppets é o terceiro álbum do Metallica e o último da banda com Cliff Burton, que morreria em setembro daquele mesmo ano durante a turnê europeia do disco. Gravado no Sweet Silence Studios, em Copenhagen, com produção de Flemming Rasmussen ao lado da própria banda, o álbum consolidou o Metallica como uma força muito além do underground thrash.

O que impressiona em Master of Puppets não é só a velocidade ou o peso. É a arquitetura das músicas. Faixas como “Battery”, “Welcome Home (Sanitarium)”, “Disposable Heroes” e a própria “Master of Puppets” mostram uma banda que ainda tinha a agressividade da cena thrash, mas já pensava em composição de forma muito mais ambiciosa.

O disco não soa como uma coleção de pancadas aleatórias. Ele tem dinâmica, clima, viradas, riffs memoráveis e uma sensação de tragédia rondando tudo. A presença de Cliff Burton também é fundamental: seu baixo, sua formação musical mais ampla e sua visão ajudaram a dar ao Metallica uma profundidade que pouca gente no thrash tinha naquele momento.

Quase 40 anos depois, Master of Puppets continua sendo tratado como um dos maiores discos de metal de todos os tempos. E não por acaso: é o tipo de álbum que funciona tanto para quem quer quebrar o pescoço quanto para quem quer entender como o metal dos anos 80 ficou mais sofisticado sem perder a violência.

2. Slayer – Reign in Blood

Se Master of Puppets é uma catedral do thrash, Reign in Blood é um ataque aéreo. Lançado em 1986, o terceiro álbum do Slayer foi produzido por Rick Rubin e saiu pela Def Jam, levando a banda a um novo patamar de visibilidade dentro do metal extremo.

O disco tem menos de meia hora, mas parece que passa por cima do ouvinte com um trator pegando fogo. “Angel of Death” abre tudo com uma das introduções mais reconhecíveis e perturbadoras do metal, enquanto “Raining Blood” encerra o álbum como se fosse trilha sonora para o fim do mundo.

A grande força de Reign in Blood está na precisão. Nada sobra. Não há gordura, não há pausa confortável, não há tentativa de soar amigável. A bateria de Dave Lombardo parece impossível, os riffs de Kerry King e Jeff Hanneman atacam sem piedade e Tom Araya entrega tudo com uma urgência quase insana.

É um disco que ajudou a empurrar o thrash para perto do death metal e influenciou praticamente qualquer banda que decidiu tocar mais rápido, mais pesado e mais extremo depois dali. Curto, brutal e histórico.

3. Megadeth – Peace Sells… But Who’s Buying?

Lançado em 1986, Peace Sells… But Who’s Buying? é o segundo álbum do Megadeth e o disco que transformou a banda de Dave Mustaine em uma entidade própria dentro do thrash metal. A obra saiu pela Capitol Records e marcou uma evolução enorme em relação ao material de estreia.

Aqui, o Megadeth já aparece com sua identidade mais clara: riffs técnicos, mudanças bruscas, letras ácidas, ironia política e aquela sensação de que a música pode desabar a qualquer segundo, mas nunca desaba. “Wake Up Dead”, “The Conjuring”, “Good Mourning/Black Friday” e “Peace Sells” mostram uma banda nervosa, afiada e cheia de personalidade.

O baixo de David Ellefson na faixa-título virou uma das linhas mais famosas do metal. E a postura de Mustaine, misturando sarcasmo, paranoia social e virtuosismo agressivo, ajudou a diferenciar o Megadeth dos outros nomes do chamado Big Four.

Se o Metallica era mais épico e o Slayer era mais brutal, o Megadeth parecia mais venenoso. Peace Sells… But Who’s Buying? é thrash com cara de debate político em beco escuro: técnico, sujo, debochado e indispensável.

4. Iron Maiden – Somewhere in Time

O Iron Maiden chegou a 1986 em uma posição curiosa. Depois do impacto de Powerslave e do gigantesco Live After Death, a banda poderia simplesmente repetir a fórmula. Mas Somewhere in Time, lançado em 29 de setembro de 1986, levou o grupo para outro território, incorporando guitarras sintetizadas e uma estética futurista que marcou profundamente essa fase.

O disco tem uma atmosfera muito própria. “Caught Somewhere in Time” já abre com clima cinematográfico, “Wasted Years” virou um dos grandes hinos da banda e “Alexander the Great” mostrou o Maiden abraçando narrativas épicas com ainda mais ambição.

A decisão de usar guitar synths poderia ter dado muito errado. Em várias bandas dos anos 80, esse tipo de escolha envelheceu mal. No caso do Maiden, ajudou a criar uma identidade única para o álbum. O peso continua ali, mas envolto em uma camada espacial, melancólica e quase tecnológica.

Somewhere in Time não é só um grande disco do Iron Maiden. É também um registro de uma banda gigante tentando se reinventar sem abandonar sua essência. E isso, para uma banda de metal em 1986, não era pouca coisa.

5. Kreator – Pleasure to Kill

Enquanto o thrash americano ganhava o mundo, a Alemanha também tinha sua própria máquina de destruição. Pleasure to Kill, lançado pelo Kreator em 1986, é um dos discos mais importantes do thrash alemão e um dos trabalhos mais agressivos daquela geração.

O som é mais cru, mais caótico e mais extremo do que boa parte do que vinha dos Estados Unidos. Mille Petrozza e companhia pareciam menos preocupados em soar polidos e mais interessados em empurrar tudo para o limite. O resultado é um disco que antecipa muito da brutalidade que seria abraçada por bandas de death metal e black metal nos anos seguintes.

“Ripping Corpse”, “Death Is Your Saviour”, “Riot of Violence” e a faixa-título são verdadeiros documentos de uma cena que não queria pedir licença. A produção é áspera, os vocais são rasgados e a bateria parece correr contra o próprio corpo.

Pleasure to Kill não é um disco confortável. E esse é justamente o ponto. Ele é um dos registros que mostram como 1986 não foi apenas o ano dos grandes clássicos acessíveis do metal, mas também um ano em que a música pesada ficou mais violenta, mais suja e mais ameaçadora.

6. Sepultura – Morbid Visions

Antes de virar uma das maiores bandas de metal do planeta, o Sepultura era uma banda mineira fazendo barulho em condições muito distantes da estrutura das bandas americanas e europeias. Morbid Visions, lançado em 10 de novembro de 1986 pela Cogumelo Records, é o primeiro álbum de estúdio do grupo e foi gravado em Belo Horizonte.

O disco é cru, cavernoso e cheio de imperfeições. Mas é justamente isso que dá força histórica ao álbum. Morbid Visions não soa como uma banda tentando agradar mercado. Soa como uma entidade surgindo do subterrâneo, misturando thrash, death e black metal em uma versão brasileira, raivosa e ainda em formação.

Faixas como “Troops of Doom”, “Mayhem” e “War” já indicavam que havia algo especial acontecendo ali. A execução ainda não tinha o refinamento que viria em Schizophrenia, Beneath the Remains ou Arise, mas a energia era real.

Para o metal brasileiro, Morbid Visions é mais do que um disco de estreia. É um marco de origem. É o começo de uma história que levaria uma banda de Belo Horizonte para palcos internacionais e colocaria o Brasil definitivamente no mapa do metal extremo.

7. Candlemass – Epicus Doomicus Metallicus

Em um ano dominado por velocidade, o Candlemass fez o caminho contrário. Epicus Doomicus Metallicus, lançado em 10 de junho de 1986, é o álbum de estreia da banda sueca e uma das obras fundamentais do doom metal épico.

Enquanto muita gente tentava tocar cada vez mais rápido, o Candlemass apostava em peso arrastado, vocais dramáticos e uma atmosfera quase religiosa. “Solitude” já abre o disco com uma sensação de ruína emocional, enquanto músicas como “Demon’s Gate” e “Under the Oak” ajudam a construir uma estética sombria, solene e monumental.

O álbum não foi exatamente um sucesso imediato. A própria história do disco envolve recepção inicial difícil e reconhecimento crescente com o passar dos anos. Hoje, no entanto, ele é visto como um dos pilares do doom metal e uma das gravações mais importantes da década.

Epicus Doomicus Metallicus prova que 1986 não foi importante apenas para o thrash. Também foi um ano decisivo para outras vertentes do metal encontrarem linguagem, identidade e culto.

8. Bon Jovi – Slippery When Wet

Sim, aqui entra a polêmica. Slippery When Wet, lançado em 18 de agosto de 1986, não é metal extremo, não é thrash e certamente não tem a brutalidade de um Slayer ou Kreator. Mas ignorar esse disco em uma conversa sobre 1986 seria fingir que o hard rock de arena não dominou uma parte enorme daquela década.

O terceiro álbum do Bon Jovi transformou a banda em fenômeno mundial. “You Give Love a Bad Name”, “Livin’ on a Prayer” e “Wanted Dead or Alive” viraram hinos gigantescos e ajudaram a definir o som comercial do rock pesado nos anos 80.

É o outro lado da moeda. Enquanto o underground ficava mais rápido e agressivo, Slippery When Wet mostrava o hard rock entrando em estádios, rádios, MTV e na cultura pop. Era refrão grande, cabelo armado, guitarra brilhando e aquela confiança absurda de quem sabia exatamente como transformar uma música em hit.

Pode não ser o disco mais pesado da lista, mas é um dos mais importantes para entender o alcance popular do rock pesado em 1986. E sejamos honestos: “Livin’ on a Prayer” ainda transforma qualquer lugar em karaokê coletivo, inclusive quem jura que só ouve som tr00.

9. Queensrÿche – Rage for Order

Lançado em 27 de junho de 1986, Rage for Order é o segundo álbum do Queensrÿche e um dos discos mais interessantes da fase inicial do metal progressivo americano.

O álbum é estranho no melhor sentido. Tem peso, mas também tem clima futurista, vocais dramáticos, arranjos mais elaborados e uma estética visual que flertava com o gótico, o glam e a ficção científica. Não era um caminho óbvio, especialmente para uma banda de metal em 1986.

Músicas como “Walk in the Shadows”, “I Dream in Infrared” e “Neue Regel” mostram o Queensrÿche construindo uma identidade mais sofisticada, preparando terreno para o salto conceitual que viria dois anos depois com Operation: Mindcrime.

Rage for Order é um disco que talvez não tenha o impacto imediato de outros nomes desta lista, mas envelheceu como obra de personalidade. É metal com ambição, atmosfera e uma certa elegância sombria que poucas bandas conseguiam entregar naquele período.

10. Dorsal Atlântica – Antes do Fim

Para fechar a lista, outro registro essencial do metal brasileiro. Antes do Fim, lançado em 1986 pela Dorsal Atlântica, é um dos discos fundamentais da cena pesada nacional dos anos 80. Segundo registros do Metal Archives, o álbum saiu pela Lunário Perpétuo Discos em formato vinil, com tiragem limitada.

A importância do disco vai além da música. Antes do Fim representa uma fase em que o metal brasileiro ainda era feito na raça, em condições difíceis, com pouca estrutura e muita urgência. Era uma cena em construção, com bandas criando linguagem própria em meio a limitações técnicas, falta de mercado e quase nenhuma visibilidade fora dos círculos mais fanáticos.

Musicalmente, a Dorsal Atlântica misturava thrash, speed metal e hardcore/crossover com uma postura frontal, politizada e agressiva. Não era uma cópia comportada do que vinha de fora. Era uma resposta brasileira, suja e direta, ao caos ao redor.

Ao lado de nomes como Sepultura e Vulcano, a Dorsal ajudou a formar a base do metal extremo nacional. E Antes do Fim segue como documento importante de uma época em que fazer metal no Brasil era quase um ato de teimosia.

1986: quando o metal se dividiu em várias frentes e venceu em todas

Olhando para essa lista, fica claro que 1986 não teve apenas muitos discos bons. Teve discos decisivos em direções completamente diferentes.

O Metallica elevou o thrash a um novo patamar de composição. O Slayer empurrou a brutalidade para o limite. O Megadeth trouxe técnica e acidez política. O Iron Maiden abraçou uma estética futurista. O Kreator ajudou a radicalizar o thrash europeu. O Candlemass fortaleceu o doom metal épico. O Bon Jovi levou o hard rock para as massas. Queensrÿche sofisticou o metal progressivo. E, no Brasil, Sepultura e Dorsal Atlântica mostraram que a cena nacional também tinha algo pesado, urgente e historicamente relevante para dizer.

Por isso 1986 continua sendo lembrado como um dos grandes anos da história do metal.

E claro: uma lista com apenas 10 discos sempre deixa gente de fora. Accept, Motörhead, King Diamond, Fates Warning, Destruction, Sodom, Dark Angel, Flotsam and Jetsam e vários outros também lançaram material importante naquele ano.