Uma celebração histórica une gerações do underground brasiliense em uma noite de caos, memória e resistência sonora
Trinta e cinco anos após surgir na Brasília inquieta do fim dos anos 80, o Death Slam segue como um dos nomes mais longevos, coerentes e indomáveis do underground candango. Em novembro de 2025, a banda celebra oficialmente essa trajetória com um show especial no Mini Festival Cult 22, no domingo, 23, evento que também marca os 34 anos do programa Cult 22, criado por Marcos Pinheiro, referência absoluta na difusão da música alternativa no Distrito Federal.

O Death Slam nasceu no choque direto entre punk, hardcore e a urgência social típica da capital. Desde o início, estabeleceu uma identidade sonora crua e veloz, sem adorno e sem concessão. Entre mudanças de formação, a banda atravessou décadas mantendo uma ética de independência inabalável e uma fidelidade absoluta ao subterrâneo.
Comemorar 35 anos é um feito raro, especialmente em uma cena onde tantos projetos se dissolvem pelo caminho. A apresentação no Mini Festival Cult 22 reforça a ligação histórica entre banda e território. O evento, que reúne nomes veteranos e novos rostos do som pesado do DF, celebra também os 34 anos do Cult 22, programa que funcionou como ponte geracional, radar de descobertas e abrigo para tudo o que ousava existir fora do mainstream. A convergência dessas datas cria um encontro simbólico entre passado, presente e futuro da cena brasiliense.
No domingo, o Death Slam divide a noite com Besthöven, K.C.C e Ilizarov, formando um line-up que espelha a diversidade da música pesada local. Mas é a banda aniversariante que carrega o peso histórico da noite. Três décadas e meia depois, o Death Slam retorna impulsionado por uma energia que não se acomoda e por um senso de propósito que só amadurece com o tempo.
Nesta segunda parte da matéria, apresentamos a entrevista completa realizada com Fellipe CDC, fundador e vocalista da banda, mantendo o tom direto, ácido e sincero que atravessa toda a sua trajetória.

MND Entrevista: Fellipe CDC (Death Slam)
1. O show de comemoração vai tentar cobrir todas as fases da banda. Existem músicas que vocês juraram nunca mais tocar e agora tiveram que ressuscitar?
Erika, primeiramente, obrigado pela oportunidade. Uma honra poder ser entrevistado por você. Sou desses caras que incentiva muito a presença da mulher dentro da cena underground e o seu trabalho de registrar e ajudar a contar nossas histórias é primordial. Obrigado mesmo. Tocaremos 35 minutos e, infelizmente, para a Death Slam, é claro, não será possível tocar tantas músicas assim. Resolvemos dissolver nosso tempo de apresentação e chamar bandas de velhos e novos amigos para dividir essa festa com a gente.
De qualquer forma, mesmo assim, ainda nos atreveremos a tocar alguns sons que há muito andavam sumidas do nosso setlist. O grande problema é que a Death Slam tem mais de uma centena de músicas e, geralmente, quando vamos tocar, o tempo de apresentação nunca é tão grande, logo, sempre ficam muitas e muitas canções de fora. É sempre uma choradeira quando temos que tirar uma ou outra (de)composição.
2. Death Slam e Besthöven juntos de novo após 25 anos. A noite promete catarse ou caos absoluto? Tem alguma lembrança daquele primeiro encontro que não pode faltar?
Um pouco da coluna A e um pouco da coluna B. Sou fã da Besthöven e tenho um respeito e uma admiração muito grande pelo trabalho do Robson Fofão. E engraçado que bandas tão antigas e ambas provenientes dos subúrbios candangos tenham tocado poucas vezes juntas. Essa será a segunda oportunidade. A primeira partiu de um convite do próprio Fofão e agora eu tive a oportunidade de retribuir. Durante as minhas panfletagens diárias tenho notado muita gente comentando sobre a apresentação da Besthöven, pois é uma banda que não costuma tocar tanto no DF.
A maior lembrança desse show foi o nosso amigo e ex-baixista Neno avisar na semana que não conseguiria tocar, pois havia cortado os dedos lavando copo. Itazil, que já era nosso amigo, entrou nesse dia após ter feito poucos ensaios e, felizmente, não saiu mais. Importante frisar que o cast do dia 23/11/25 ainda terá duas outras bandas: a novata K.C.C, crossover feito por uma molecada com sangue nos olhos, e o trio Ilizarov, excelente banda de Formosa, que faz uma belíssima mistura de death-metal, hardcore e rock’n’roll.
3. O Cult 22 comemora 34 anos no mesmo dia. O que representa para vocês tocar nesse encontro entre duas histórias tão resistentes do underground do DF?
Eu sempre falo que o Marcos Pinheiro é o verdadeiro herói do rock brasiliense, sem contar que é o meu guru. Graças a ele tive vontade de apresentar um programa de rádio e hoje o próprio Marquinhos abriga o ZINE-SE na sua rádio on-line Cult 22. É um grande amigo e uma pessoa muito querida pela qual guardo muito respeito. Já falei para ele que o Marcos Pinheiro deveria ser o nosso Deputado Distrital. O Cult 22 é o programa de rádio que mais vezes tocou a Death Slam nas ondas sonoras. Será um encontro de muita gratidão por parte da Death Slam.
4. Brasília viu gerações inteiras surgirem e sumirem na cena. O que a Death Slam enxerga hoje que não existia nos anos 90 e o que infelizmente continua exatamente igual?
Antigamente não existia internet. Quando a Death Slam começou, salvo engano, nem computador eu lembro de ter visto. Essas ferramentas, por um lado, facilitaram muito a expansão da música, mas, por outro lado, também deixaram o mundo mais preguiçoso e imediatista. O que eu estou vendo de mais legal desses novos tempos é que as mulheres estão tomando a nossa cena de assalto e isso é absolutamente fascinante. O que me chateia um pouco é que a união entre bangers, punks e hardcores ainda não é plena, como deveria ser.
5. Por fim: se a Death Slam pudesse enviar uma mensagem para a própria versão de 1990, qual seria o conselho que vocês dariam para quem está começando uma banda hoje?
O que fizer, faça por amor. Esse deve ser o lema de uma banda underground. Toda banda grande um dia já foi pertencente ao subterrâneo da música. É bom deixar anotado em letras garrafais que bandas underground não dão dinheiro. Lógico que, felizmente, tem as exceções, bandas que conseguem furar a grande redoma e viver da própria arte, mas tratam-se de casos raros e isolados. Encarem a banda como um hobby sério, como algo que te traga prazer, satisfação e alegria. Acima de tudo: divirtam-se!

SERVIÇO
MINI FESTIVAL CULT 22, 34 ANOS
Dias: 22 e 23 de novembro (sábado e domingo)
Local: Infinu Comunidade Criativa (506 Sul)
DJs (16h às 22h): Abelardo Mendes Jr, Eliane América, Erika Meier, Marcos Pinheiro, SCHWNCK e Superquadra DJ Set (Claudio Bull + Wilton Rossi)
Bandas (17h às 20h): Besthöven, Death Slam, Ilizarov, K.C.C., Mariana Camelo, Mirante e Suíte Super Luxo
Feira de Rock (somente dia 23/11 – 12h às 19h): Camisetas Mancha Negra, Darksiders Tattoo, Estúdio Mercearia, Julepletier Feltros, Mercadinho do Natinho e Oto Livraria
Entrada: franca (não é necessária a retirada antecipada de ingressos)
Mais informações: www.instagram.com/cult22
Matéria escrita por @erikameier
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