Ao longo de mais de duas décadas, o Russian Circles construiu uma discografia marcada por consistência e impacto. Em “Nine”, nono álbum de estúdio do trio, essa identidade permanece intacta, mas ganha novas camadas de tensão, peso e atmosfera cinematográfica.
O disco chega em 28 de agosto pela Sargent House e sucede “Gnosis”, de 2022. Mike Sullivan, Dave Turncrantz e Brian Cook voltaram a trabalhar com o engenheiro e produtor Kurt Ballou, responsável por uma gravação que preserva a dinâmica natural da banda sem diminuir sua intensidade.
Peso e espaço em constante movimento
“Borehole” abre o álbum aproximando riffs robustos de passagens progressivas. É uma faixa direta para os padrões do grupo, mas ainda carregada de mudanças de textura e de uma construção que cresce gradualmente. Na sequência, “Empath” leva o trio a um terreno mais agressivo, com guitarras que flertam com thrash e black metal.
O ponto central do repertório é “Eluvial”. Em aproximadamente oito minutos, padrões de guitarra com delay, sintetizadores e uma pulsação inspirada em ritmos latinos criam uma paisagem que cresce sem pressa. A força da música está menos em uma explosão imediata e mais na tensão acumulada até seus momentos finais.
“E2” introduz a segunda metade com sintetizadores pulsantes e guitarras dedilhadas. “Meridian” reduz o andamento e trabalha outra escalada cuidadosa, sustentada pela bateria precisa de Turncrantz. O contraste entre a melancolia de “Arletta” e a agressividade de “Seventh Seal” encerra o disco de maneira convincente.
Uma obra ligada a Chicago
A capa utiliza uma fotografia de “Snowpile for Chicago”, escultura de Tony Tasset instalada em uma biblioteca pública da cidade desde 2004 — o mesmo ano em que o Russian Circles foi formado. A escolha funciona como homenagem às origens do trio e como metáfora para uma música que transforma elementos familiares conforme o ouvinte muda o ponto de observação.
Veredito
“Nine” não tenta reinventar o Russian Circles. Em vez disso, aprofunda os contrastes que tornaram a banda uma referência do post-metal instrumental: beleza e violência, silêncio e volume, controle e catarse. O resultado é um álbum coeso, detalhado e capaz de revelar novas nuances a cada audição.
Mesmo no nono trabalho, o trio continua encontrando maneiras de fazer seu vocabulário soar vivo. “Nine” confirma que o Russian Circles permanece à frente de boa parte de seus contemporâneos.