Strigah estreia com “Zoetia”, álbum que une metal experimental, crítica ambiental e misticismo

A banda paulistana Strigah lançou “Zoetia”, seu álbum de estreia, pela Coffinjoe Records. O trabalho marca a consolidação de uma sonoridade que atravessa metal moderno, prog metal, industrial e experimental, ao mesmo tempo em que mergulha em temas como colapso ambiental, alienação urbana, misticismo, crítica social e existencialismo.

O nome do disco parte de um neologismo criado pela própria banda. “Zoetia” une “zoe”, vida, e “goetia”, feitiço. A ideia de um “feitiço da vida” conduz o álbum como uma jornada contínua, partindo da revolta contra a cultura moderna e chegando a uma busca por reconexão entre corpo, natureza, espiritualidade e existência.

A formação da Strigah traz Kaio Felipe nos vocais, Samanta Tica no baixo, Eleonardo de Paula na bateria e Matheus Figueredo na guitarra. Juntos, os músicos constroem um disco que não tenta seguir uma rota óbvia dentro do metal nacional. A banda trabalha com groove, polirritmia, quebras de tempo, estruturas pouco previsíveis, atmosferas densas e momentos melódicos que ampliam o peso das composições.

A própria Strigah descreve “Zoetia” como uma obra voltada a quem procura música diferente, feita a partir de elementos reconhecíveis do metal, mas organizada por uma lógica própria. E essa definição ajuda bastante a entender o disco: há referências claras ao peso contemporâneo, ao industrial e ao metal experimental, mas o álbum parece mais interessado em criar um território próprio do que apenas repetir fórmulas.

Liricamente, “Zoetia” funciona quase como um tratado sobre ambientes. Há o ambiente natural ameaçado, a cidade hostil, o espaço virtual, a dimensão interna do sujeito e o campo espiritual onde conflito e libertação se misturam. O álbum cita referências dos povos originários, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, e também dialoga com imagens ligadas ao gnosticismo, à bruxaria tradicional e à cabala judaica.

Em “A propriedade é roubo”, a Strigah parte da relação entre terra, exploração e destruição ambiental. A letra menciona território tomado, mineração, latifúndio e a memória de defensores da floresta como Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang. Já “Espírito da cidade” desloca a tensão para o ambiente urbano, evocando repressão, polícia, gás lacrimogêneo, controle social e violência de classe.

“Xamanismo urbano” aprofunda a leitura anticolonial do disco, tratando a alienação moderna como afastamento da natureza e da ancestralidade. A faixa associa agronegócio, fogo, veneno, genocídio indígena e destruição da Amazônia, conectando crítica ambiental e denúncia política em uma mesma paisagem sonora.

O álbum também entra em territórios mais simbólicos e internos. “Maldito Demiurgo!” parte de referências gnósticas para refletir sobre ego, desejo, divisão interna e falsas promessas de paraíso. Já “Extinção humana voluntária” aborda a relação entre humanidade e exploração dos seres não humanos, usando imagens de matadouros, animais presos, experimentos e violência sistêmica.

Em “Florestas digitais”, a crítica se desloca para a vida mediada por máquinas, redes e avatares. A faixa trabalha a ideia de corpos suspensos, perda de vínculo e esgotamento do tempo, observando como a experiência humana parece cada vez mais filtrada por telas, algoritmos e simulações de presença.

A dimensão espiritual ganha mais espaço em músicas como “Memória do mar”, que trabalha ideias de repetição, retorno, reencarnação e continuidade da vida. “Eu sou Tetsuo” aposta em imagens de excesso, dissociação, violência urbana e transformação corporal, em diálogo com uma estética de colapso e mutação.

A faixa instrumental “O voo do Simorgh” faz referência ao pássaro mitológico persa que, segundo a tradição, constrói seu ninho no topo da árvore da vida. Ela antecede “A quebra dos vasos”, música ligada à cabala judaica, ao Tikkun e à ideia de reparação do cosmos.

“Zoetia” é um disco ambicioso, tanto no conceito quanto na forma. A Strigah não está apenas apresentando um conjunto de faixas pesadas, mas tentando construir uma obra com eixo próprio, onde agressividade política, inquietação filosófica e pesquisa sonora caminham juntas.

Entre as referências citadas pela banda estão nomes brasileiros como Deafkids, Sodade, Última Theoria, Haru e a Corja e Bebê Feio, além de influências internacionais como Fear Factory, Meshuggah, Deftones, Northlane, Brujeria e Five Pointe O. Ainda assim, o resultado não soa como simples soma de referências. A Strigah parece interessada em processar tudo isso por uma ótica própria, mais ritualística, crítica e desconfortável.

A produção também reforça essa proposta. “Zoetia” tem mixagem e masterização de Yukio Hara, arte de capa de Jennifer Erny, diagramação e arte final de Luiz Alcamim e fotografia da banda por Chev. A produção e pós-produção dos clipes ficam a cargo da RageBox Prod.

Após o lançamento, a Strigah prepara um show de apresentação de “Zoetia” no Hot Pub, em Santo André. A apresentação será gravada e dará origem a um clipe previsto para o fim de julho.

Com “Zoetia”, a Strigah estreia com um disco que não escolhe o caminho mais fácil. É pesado, inquieto, político, espiritual e estranho na medida certa. Um trabalho que olha para o metal como linguagem de confronto, mas também como ferramenta de reflexão.

No fim, “Zoetia” não soa apenas como uma estreia. Soa como uma declaração de identidade.