Tarja está de volta ao metal com Frisson Noir, novo álbum lançado pela earMUSIC, e a pergunta que parece guiar boa parte do disco é simples: dá para soar grandiosa, dramática, sinfônica e ainda assim pesada?
A resposta, na maior parte do tempo, é sim.
Descrito como um dos trabalhos mais pesados da carreira da cantora finlandesa, Frisson Noir aposta em guitarras mais presentes, produção moderna e uma atmosfera sombria que combina bem com a identidade construída por Tarja desde sua saída do Nightwish. O disco não abandona o lado operístico e cinematográfico que sempre acompanhou sua voz, mas coloca tudo isso dentro de uma moldura mais robusta, com riffs mais fortes e arranjos que buscam impacto.
O álbum passa de uma hora de duração e se comporta como uma viagem por diferentes ambientes: momentos épicos, baladas emocionais, participações especiais de peso e músicas que tentam equilibrar metal sinfônico, rock pesado e passagens mais experimentais.
A abertura com “Frisson Noir” já estabelece bem esse clima. A faixa funciona como uma porta de entrada para o universo do disco, misturando mistério, peso moderado e aquela dramaticidade que Tarja domina como poucas. Não é uma explosão imediata, mas prepara o terreno para um álbum que prefere crescer em camadas.
Um dos pontos mais comentados é “At Sea”, faixa com mais de dez minutos e clima grandioso. A música aposta em mudanças de dinâmica, piano, tensão crescente e uma sensação de instabilidade que combina com a ideia de estar em mar aberto. É ambiciosa, às vezes até excessiva, mas mostra Tarja tentando ir além da estrutura tradicional de single.
Entre as colaborações, “Leap Of Faith” chama atenção por reunir Tarja novamente com Marko Hietala. Para fãs da fase clássica do Nightwish, é impossível ouvir essa parceria sem um certo peso emocional. A música funciona justamente por isso: não tenta recriar o passado, mas usa a química entre as vozes para entregar um momento melódico, forte e carregado de memória.
“Tango”, com participação do Apocalyptica, é outro destaque natural. A presença dos violoncelos encaixa muito bem no universo de Tarja, criando uma faixa elegante, dramática e com personalidade. É o tipo de colaboração que parece óbvia no papel, mas que também funciona na prática.
Já “I Don’t Care”, com Dani Filth, é provavelmente a parceria mais curiosa do álbum. O contraste entre a voz extrema do vocalista do Cradle Of Filth e o canto lírico de Tarja chama atenção imediatamente. A combinação rende um momento interessante, especialmente pelo choque de estilos, embora a música em si não seja necessariamente a mais forte do disco. O encontro é marcante mais pela ideia do que pelo resultado musical completo.
Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers, aparece em “Against All Odds”, faixa que traz um clima mais atmosférico e esperançoso. Não é o tipo de participação que rouba a cena, mas adiciona peso e presença a uma música que trabalha bem a construção emocional.
Entre os momentos mais bonitos do álbum está “Anemoia”, uma balada conduzida com sensibilidade e grande performance vocal. Tarja sempre teve facilidade para transformar faixas mais contidas em algo teatral sem soar frio, e aqui isso aparece com força. É uma das músicas em que sua interpretação carrega praticamente tudo.
“The Trace Outlives” também merece destaque por trazer uma sonoridade diferente, com influência oriental e uso de shamisen, instrumento tradicional japonês. Esse detalhe ajuda a faixa a se destacar dentro do repertório e mostra que Frisson Noir não está interessado apenas em repetir fórmulas do metal sinfônico.
O disco tem seus excessos. Em alguns momentos, a duração pesa e certas ideias poderiam ser mais diretas. Mas, no geral, Frisson Noir entrega uma Tarja inspirada, vocalmente impecável e cercada por uma produção que valoriza tanto o peso quanto o drama.
A comparação com o material mais recente do Nightwish é inevitável para parte do público, e algumas críticas já colocaram Frisson Noir acima dos últimos lançamentos da antiga banda de Tarja. É uma afirmação forte, mas dá para entender de onde ela vem. O álbum tem energia, ambição e uma sensação de urgência que conversa diretamente com fãs que sentem falta de um metal sinfônico mais imponente e menos contemplativo.
Frisson Noir não é perfeito, mas é um disco importante dentro da carreira solo de Tarja. Ele reforça sua identidade, abraça o peso sem abandonar o lado clássico e mostra uma artista que ainda parece interessada em desafiar sua própria fórmula.
Para quem acompanha Tarja desde os tempos de Nightwish, o álbum oferece nostalgia sem depender dela. Para quem acompanha sua fase solo, é um dos trabalhos mais consistentes e pesados dos últimos anos.
No fim, Frisson Noir mostra que Tarja ainda sabe transformar escuridão, drama e metal em algo grandioso.
Nota: 8/10