Angra, Alírio Netto e Fabio Lione: quando uma nova fase mexe com uma história viva

Cantores Edu Falaschi (esq.), Fabio Lione (centro) e Alírio Netto em show especial do Angra na quarta edição do festival Bangers Open Air, no Memorial da América Latina, em São Paulo | Diego Padilha - 26.abr.2026/Divulgação

O Angra nunca foi uma banda simples de acompanhar. Cada fase carregou sua própria marca, seus próprios defensores, suas próprias feridas abertas e, claro, suas próprias discussões intermináveis. Depois do Bangers Open Air 2026, ficou claro que isso não mudou.

A apresentação no Memorial da América Latina, em São Paulo, reuniu diferentes momentos da história do grupo em um show de caráter especial, celebrando os 35 anos da banda e colocando no mesmo palco nomes ligados a fases distintas do Angra. A noite também marcou a despedida de Fabio Lione e a estreia de Alírio Netto nos vocais, dois fatos que naturalmente colocariam qualquer análise sob tensão.

Mas foi a performance de “Nothing To Say”, registrada em vídeo por Wanderson Fernandes, que reacendeu o debate. O vídeo, publicado no YouTube com imagens do show no Bangers Open Air, rapidamente chamou atenção pela qualidade do registro e pela entrega da nova formação, especialmente pela segurança vocal de Alírio Netto em uma música que pertence a uma das fases mais simbólicas da banda.

E aí entra o ponto central: falar em “nova fase” ou até em “renascimento” não significa apagar o passado.

Significa reconhecer uma virada.

O peso de uma história que ninguém carrega sozinho

Poucas bandas brasileiras de metal têm uma trajetória tão marcada por mudanças de formação quanto o Angra. André Matos, Edu Falaschi, Fabio Lione e agora Alírio Netto representam capítulos diferentes de uma mesma obra. Cada um deixou ou começa a deixar sua assinatura.

Fabio Lione, em especial, teve uma passagem longa e importante. Foram mais de 13 anos à frente da banda, atravessando discos, turnês, regravações emocionais no palco e um período em que o Angra precisou se sustentar depois de rupturas profundas. Sua saída, anunciada antes do Bangers Open Air, inevitavelmente mexeu com fãs e com a própria leitura pública sobre o futuro do grupo.

Por isso, qualquer elogio à entrada de Alírio pode ser interpretado por alguns como uma diminuição do que veio antes.

Mas não precisa ser.

Reconhecer que Alírio chegou bem, cantando com força, presença e naturalidade, não apaga a importância de Fabio. Da mesma forma, valorizar Fabio não impede que se olhe para a frente.

O problema é que, no Angra, passado e presente raramente convivem sem faísca.

Alírio Netto entrou sob pressão

Assumir o microfone do Angra nunca será uma missão simples. Não se trata apenas de cantar notas difíceis. Trata-se de entrar em uma banda em que cada vocalista anterior virou referência, comparação e campo de batalha emocional para parte dos fãs.

Alírio Netto chegou em um dos momentos mais expostos possíveis: um show histórico, festival grande, reunião de ex-integrantes, despedida de Fabio Lione, presença de Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Aquiles Priester e toda a carga simbólica que acompanha esse tipo de evento.

Ainda assim, sua performance em “Nothing To Say” mostrou algo importante: ele não entrou pedindo licença demais.

Entrou cantando.

Com voz firme, domínio de palco e uma energia que passou a sensação de começo, não apenas de substituição.

E talvez seja exatamente isso que tenha mexido tanto com o público.

“Renascimento” não é negação. É movimento.

A palavra “renasce” pode causar incômodo porque carrega uma ideia forte. Mas dentro do rock e do metal, renascimento não precisa significar que tudo antes estava morto. Muitas vezes, significa apenas que algo mudou de pele.

O Angra já renasceu mais de uma vez.

Renasceu depois da saída de André Matos.
Renasceu com a fase “Rebirth”.
Renasceu ao lado de Fabio Lione.
E agora tenta renascer novamente com Alírio Netto.

Esse ciclo de rupturas e retomadas é parte da identidade da banda. O Angra sempre foi técnica, ambição, drama, virtuosismo e conflito. Talvez por isso ainda provoque reações tão intensas.

Bandas irrelevantes não causam esse tipo de debate.

A discussão prova que o Angra ainda importa

A repercussão em torno da nova formação mostra que o Angra continua sendo uma banda viva no imaginário do metal brasileiro. Se uma performance, uma análise ou uma escolha de palavra ainda são capazes de provocar tanta reação, é porque a história segue aberta.

E isso, para o bem ou para o caos, é uma vitória.

A estreia de Alírio Netto não precisa ser lida como ataque ao legado de Fabio Lione. Também não precisa ser tratada como tentativa de reescrever a história da banda.

É apenas o próximo capítulo.

E se o Bangers Open Air 2026 serviu como termômetro, esse capítulo começou quente.

Muito quente.

O Angra segue sendo o Angra: técnico, grandioso, emocional, controverso e impossível de ignorar.

No fim, talvez essa seja a maior prova de força da banda.

Mesmo depois de 35 anos, ainda basta uma música para incendiar a cena.