Finger Eleven explica longevidade da formação: “Somos amigos que têm uma banda”

O Finger Eleven atravessou mais de três décadas de carreira mantendo grande parte de sua formação original, algo cada vez mais raro entre bandas com uma trajetória tão longa. Para o vocalista Scott Anderson e o guitarrista James Black, o principal motivo está na relação construída antes mesmo de o grupo existir.

Em entrevista a Scott Rizzuto, apresentador do programa “The Rizzuto Show”, da rádio 105.7 The Point, em St. Louis, os músicos falaram sobre a amizade entre os integrantes, o processo de composição e os dez anos necessários para concluir o álbum “Last Night On Earth”.

Questionado sobre como o Finger Eleven conseguiu preservar sua formação durante mais de 35 anos, Anderson destacou que os integrantes continuam encontrando prazer em tocar juntos.

“Nós ainda gostamos do que fazemos e acho que nos comunicamos um pouco melhor. As discussões talvez sejam um pouco mais simplificadas. Mas o que importa é que ainda amamos tocar juntos. Dá para perceber isso quando você nos assiste ao vivo. Ainda estamos nisso por esse motivo”, afirmou.

James Black resumiu a dinâmica do grupo destacando que a amizade veio antes da carreira musical.

“Éramos amigos antes de sermos uma banda. Então, acho que isso influencia a dinâmica. Somos amigos que têm uma banda; não somos uma banda tentando ser amigos. É quase a mesma coisa, mas é diferente”, explicou o guitarrista.

O longo caminho até “Last Night On Earth”

Durante a conversa, Anderson e Black também comentaram “Last Night On Earth”, lançado em novembro de 2025. O disco marcou o primeiro álbum completo de inéditas do Finger Eleven em uma década, sucedendo “Five Crooked Lines”, de 2015.

James afirmou que a banda está satisfeita com o resultado e acredita que o longo período de produção ajudou a transformar o álbum exatamente no trabalho que os cinco integrantes desejavam apresentar.

“Estamos felizes com o disco e acho que todo o tempo que levamos foi bem empregado para torná-lo o que queríamos”, declarou.

Segundo o guitarrista, a necessidade de chegar a um resultado aprovado por todos torna o processo mais demorado. Em vez de ignorar a insatisfação de algum integrante apenas para cumprir um prazo, o Finger Eleven prefere discutir cada parte e procurar uma solução coletiva.

Black explicou que até mesmo uma pequena linha de guitarra pode provocar uma longa conversa. Um músico pode considerar aquele trecho essencial, enquanto outro acredita que a composição funcionaria melhor sem ele. A partir daí, o grupo tenta preservar a ideia original e, ao mesmo tempo, incorporar as mudanças sugeridas.

Em alguns casos, a única solução é abandonar tudo o que foi feito e reconstruir a música a partir de uma nova perspectiva.

“Você não quer fazer algo do tipo: ‘Um dos caras não gosta muito, mas que pena. Precisamos terminar’. Porque esse motivo de permanecer juntos e ser algo sólido, acho que levar muito tempo não é um negócio inteligente, mas é bom para a banda, de uma forma estranha”, disse James.

Apesar de reconhecer que pequenas ideias continuam surgindo, o guitarrista revelou que o Finger Eleven ainda não iniciou oficialmente a produção de um próximo álbum.

“Sempre haverá pequenas ideias circulando, mas acho que nada foi realmente iniciado oficialmente”, contou.

Por que o álbum levou dez anos?

Scott Anderson já havia abordado o longo intervalo entre os discos em uma entrevista concedida em dezembro de 2025 a Matt Bingham, da rádio Z93.

Na ocasião, o vocalista explicou que os integrantes atualmente conciliam a banda com responsabilidades familiares e que o grupo não conseguiu se adaptar bem ao trabalho remoto.

“Somos todos pais e maridos. E não nos saímos bem com gravações remotas. Tentamos, mas as agendas de todos são bem cheias. Então, a única coisa que realmente funcionou — e ainda funciona — é nos reunirmos”, afirmou.

Tradicionalmente, o Finger Eleven alugava uma casa de campo e passava uma ou duas semanas desenvolvendo novas ideias. O método permitia que as músicas fossem trabalhadas coletivamente, mas a ausência de um prazo definido também contribuiu para prolongar a produção.

Em vez de reservar um grande estúdio por um ou dois meses e precisar concluir o álbum dentro desse período, os músicos continuavam retornando às composições e modificando o material.

Parte do trabalho também aconteceu na casa de Steve Molella, baterista da banda e produtor de “Last Night On Earth”. Anderson contou que as músicas eram constantemente desconstruídas, reescritas e reorganizadas.

“Isso manteve a qualidade das músicas alta, mas levou uma eternidade”, reconheceu.

A pressão para concluir o álbum aumentou após a banda participar de uma grande turnê com o Creed. Com o crescimento do interesse em torno do Finger Eleven, os músicos perceberam que precisavam aproveitar o momento e finalmente terminar o disco.

“Tivemos aquela grande turnê com o Creed e houve algum interesse na banda. Então pensamos: ‘Temos que atacar enquanto o ferro está quente. Precisamos descobrir como terminar este disco’. E eventualmente conseguimos”, relembrou.

Embora consiga explicar os motivos do atraso, Scott deixou claro que não pretende repetir o intervalo de uma década.

“Não acredito que tenha levado tanto tempo, mas de certa forma consigo explicar o tempo. Mas não quero que leve tanto tempo novamente, isso é certo”, afirmou.

“É ótimo para a música, mas terrível para a carreira”

Anderson reconheceu que passar dez anos aperfeiçoando um conjunto de músicas pode beneficiar o resultado artístico, mas alertou que a estratégia é prejudicial para a carreira de qualquer banda.

“É ótimo para a qualidade musical, mas é um assassinato para sua carreira. É terrível. Não façam isso. Terminem o disco. Meu conselho para qualquer músico por aí: terminem seu bendito disco antes de dez anos, por favor”, brincou.

O cantor também comentou a possível impaciência do público durante a espera. Para ele, fãs de grupos veteranos nem sempre recebem um novo álbum com grande expectativa, especialmente porque alguns trabalhos lançados em fases mais avançadas de uma carreira não conseguem manter a qualidade dos discos anteriores.

No caso de “Last Night On Earth”, entretanto, Anderson acredita que o rigor adotado durante a produção resultou em um álbum capaz de surpreender.

“O controle de qualidade está lá. O sacrifício foi todo esse tempo, mas o resultado é que é um disco muito sólido para uma banda que já existe há algum tempo”, avaliou.

Um processo cada vez mais coletivo

Scott também destacou que o processo criativo do Finger Eleven se tornou mais aberto ao longo dos anos. Atualmente, qualquer integrante pode comentar sobre riffs, letras, arranjos ou qualquer outro elemento das músicas.

“Não é apenas um esforço coletivo, é mais aberto do que nunca, o que é bem mágico. Qualquer um pode opinar sobre qualquer coisa”, explicou.

Essa liberdade, segundo o vocalista, torna o trabalho mais satisfatório, mas também exige paciência. Como todos precisam estar confortáveis com o resultado, uma música pode passar por inúmeras alterações até chegar à versão definitiva.

Anderson acredita que entregar todas as decisões a uma única pessoa poderia acelerar o processo, mas dificilmente criaria um ambiente saudável para os integrantes.

“Se você tiver uma pessoa dizendo: ‘Não, não, não. Toque isso, toque aquilo’, seu álbum estará pronto em uma semana. Mas essa não é uma visão satisfatória. Não é o que mantém as bandas unidas, na minha opinião”, declarou.

Para ele, a possibilidade de apresentar qualquer ideia sem medo de provocar conflitos é uma das maiores forças da atual dinâmica do Finger Eleven.

O retorno após uma década

Antes do lançamento do álbum, o Finger Eleven apresentou algumas faixas que anteciparam essa nova fase.

“Adrenaline”, divulgada em 2024, foi o primeiro contato do público com o material de “Last Night On Earth”. A música alcançou o Top 20 da parada Mediabase Active Rock e chegou ao segundo lugar da parada Active Rock no Canadá, permanecendo por mais de quatro meses entre as cinco primeiras posições.

Em agosto de 2025, a banda lançou “Blue Sky Mystery”, faixa gravada com a participação de Richard Patrick, vocalista do Filter. No mês seguinte, foi a vez da música que dá nome ao álbum, “Last Night On Earth”.

O disco completo chegou em novembro de 2025, encerrando oficialmente o intervalo iniciado após “Five Crooked Lines”.

Mais de três décadas de carreira

Formado originalmente em Burlington, na província canadense de Ontário, e posteriormente estabelecido principalmente em Toronto, o Finger Eleven construiu uma trajetória marcada pelo sucesso nas rádios de rock e por uma forte presença ao vivo.

O álbum autointitulado da banda ampliou sua projeção internacional e recebeu disco de ouro nos Estados Unidos e platina no Canadá. O trabalho também apresentou “One Thing”, uma das músicas responsáveis por levar o grupo às paradas da Billboard e ao público mundial.

Em 2007, “Them Vs. You Vs. Me” trouxe o maior sucesso comercial da banda, “Paralyzer”. O single alcançou o primeiro lugar em diferentes mercados, recebeu cinco certificações de platina e ajudou o álbum a ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas.

O trabalho também rendeu ao Finger Eleven um Juno Award na categoria de álbum de rock. Mais tarde, “Life Turns Electric” seria indicado ao prêmio de melhor álbum de rock do ano.

Após “Five Crooked Lines”, de 2015, a banda lançou em 2023 a coletânea “Greatest Hits”, que incluiu “Together Right”. A faixa permaneceu durante cinco semanas no primeiro lugar das rádios canadenses.

Agora, com “Last Night On Earth”, o Finger Eleven inicia um novo capítulo reafirmando uma filosofia que ajudou a sustentar sua carreira: colocar a amizade, a comunicação e a satisfação coletiva acima da pressa.