Marc Brito fala sobre os sacrifícios de viver pelo heavy metal underground

Vocalista do Hellway Train e Creatures detalha turnê europeia, trabalho como tour manager, diversidade e os desafios de manter bandas autorais no Brasil.

Viver de música no underground brasileiro exige muito mais do que subir ao palco nos finais de semana. Para Marc Brito, vocalista das bandas HELLWAY TRAIN e CREATURES, significa organizar turnês, produzir conteúdo, vender merchandising, atravessar o país de ônibus e direcionar praticamente toda a vida para manter seus projetos em movimento.

Em entrevista ao podcast do canal Heavy Metal On Line, o músico falou sobre sua trajetória, a primeira passagem do CREATURES pela Europa, o trabalho como tour manager e a realidade financeira enfrentada pelas bandas autorais brasileiras.

“Não é uma coisa que eu faço no fim de semana. É a minha vida”, afirmou Marc ao explicar a dedicação necessária para sustentar sua atuação dentro da cena.

Creatures levou heavy metal brasileiro ao Keep It True

Um dos principais assuntos da conversa foi a participação do CREATURES no Keep It True, festival alemão dedicado ao heavy metal tradicional e às diferentes vertentes da sonoridade old school.

Segundo Marc, o convite chegou quando o evento já estava com os ingressos esgotados. A banda teria apenas alguns meses para organizar as passagens, a logística, o merchandising e possíveis apresentações adicionais.

O vocalista explicou que mesmo grupos relativamente consolidados precisam bancar os próprios deslocamentos até a Europa. O retorno costuma vir por meio dos cachês, da venda de produtos e da bilheteria dos demais shows da turnê.

No caso do CREATURES, porém, a janela curta dificultou a montagem de uma sequência maior de apresentações.

Mesmo diante do risco financeiro, o grupo decidiu aceitar o convite. O CREATURES tornou-se a primeira banda brasileira a se apresentar no Keep It True.

Para o músico, a conquista não pertence apenas ao grupo, mas representa o fortalecimento de toda a cena brasileira ligada ao heavy metal tradicional e ao hard rock.

Além do festival, a banda realizou duas apresentações paralelas, uma na Alemanha e outra em Luxemburgo. Os integrantes permaneceram durante 11 dias na Europa.

Banda não precisa viajar apenas para tirar fotografias

Marc destacou que o CREATURES nunca teve como objetivo viajar para o exterior apenas para acrescentar uma turnê europeia ao currículo.

A banda aguardou até alcançar uma estrutura mínima, com álbum distribuído por uma gravadora europeia, singles em circulação e uma resposta concreta do público.

Segundo o vocalista, uma viagem internacional precisa representar uma etapa real no crescimento do projeto.

“Não queríamos fazer uma turnê apenas para dizer que fomos e tirar umas fotos. Queríamos chegar em um momento de maturidade para colher frutos maduros”, explicou.

O músico também ressaltou a importância do planejamento de rota, transporte, equipamentos, bagagens e quantidade de produtos levados para venda.

No Keep It True, o próprio festival ficou responsável pela comercialização dos materiais das bandas, recebendo uma porcentagem das vendas. Marc avaliou que, nesse contexto, o modelo funcionou de maneira organizada e evitou que cada grupo precisasse montar e administrar sua própria banca.

Sacrifícios para manter duas bandas

Além do CREATURES, Marc integra o HELLWAY TRAIN, banda fundada em Belo Horizonte em 2010.

Atualmente, os integrantes dos dois projetos vivem em diferentes cidades. Há músicos em Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, o que exige longos deslocamentos para ensaios, gravações e turnês.

Marc contou que uma viagem entre Belo Horizonte e Curitiba pode durar aproximadamente 16 horas. Em algumas ocasiões, ele divide o trajeto em duas etapas para economizar cerca de R$ 100.

“Funciona porque existem sacrifícios. Não dá para querer uma vida normal, estabilidade e, ao mesmo tempo, manter tudo isso sem abrir mão de algumas coisas”, declarou.

A organização interna também é fundamental. No HELLWAY TRAIN, as tarefas burocráticas e financeiras ficam concentradas principalmente no guitarrista Vinícius, enquanto Marc participa da criação, das relações públicas e da produção audiovisual.

O vocalista também trabalha com design gráfico, edição de vídeo e redes sociais, utilizando essas habilidades para reduzir custos e ampliar a identidade visual dos projetos.

Bandas reinvestem tudo que recebem

Marc afirmou que o dinheiro obtido com shows, cachês e merchandising permanece com as próprias bandas.

Os valores são utilizados para financiar gravações, videoclipes, figurinos, iluminação, cenários, equipamentos e novas viagens.

“As bandas conseguem sobreviver das próprias bandas. Isso já é uma vitória. Ganhar dinheiro para os integrantes, não”, resumiu.

Para o músico, esse processo exige trabalho diário de divulgação, contato com produtores, envio de discos, busca por apresentações e construção de relacionamentos dentro da cena.

Sem o apoio financeiro de grandes gravadoras, os próprios artistas precisam encontrar maneiras de bancar seus lançamentos.

“A Universal ou a Warner não vão mandar dinheiro para gravarmos o disco. A banda precisa fazer shows e vender merchandising. É um trabalho diário e eterno”, afirmou.

Underground é trabalho, mas nem sempre é emprego

Ao longo da entrevista, Marc também fez uma distinção entre trabalhar no underground e conseguir sobreviver exclusivamente com bandas underground.

Atualmente, ele atua como tour manager e presta serviços para produtoras e artistas internacionais. Entre os trabalhos mencionados está uma turnê latino-americana do TYGERS OF PAN TANG.

Segundo Marc, essa atuação profissional possui ligação direta com o universo que sempre frequentou, mas não significa que suas bandas sejam responsáveis pelo pagamento de suas despesas pessoais.

“O underground é trabalho, mas não necessariamente um emprego. O que paga minhas contas são os serviços que presto para artistas e produtoras”, explicou.

Apesar da rotina exaustiva, que inclui aeroportos, rodoviárias, montagem de palco, passagem de som, camarins, transporte de equipamentos e longas viagens de van, Marc afirmou sentir-se realizado nesse ambiente.

“Eu amo trabalhar com isso. Sou apaixonado por esse meio”, declarou.

Dinheiro pode abrir portas, mas não garante uma carreira

Questionado sobre a possibilidade de uma banda pular etapas, Marc respondeu que o dinheiro pode facilitar o acesso a festivais, grandes palcos e estruturas profissionais, mas não garante a consolidação de um projeto.

“Dinheiro acessa lugares, mas não consolida se você não tem lastro e qualidade”, afirmou.

Para ele, o público consegue perceber quando uma banda possui identidade, dedicação e conexão verdadeira com aquilo que apresenta.

Mesmo com grandes investimentos, iluminação, pirotecnia ou participações em festivais importantes, um projeto pode não avançar caso não consiga estabelecer uma ligação real com as pessoas.

Marc afirmou que não possui o objetivo de se tornar uma estrela do rock. Seu foco está em desenvolver uma trajetória coerente dentro do underground.

“O caminho para mim é o underground. Eu quero trilhar esse caminho”, declarou.

Diversidade e pertencimento dentro do metal

Outro tema abordado foi a diversidade dentro da cena heavy metal.

Marc contou que precisou adotar uma postura pública e combativa porque, durante anos, sentiu que algumas pessoas tentavam afastá-lo daquele espaço.

Na avaliação do vocalista, a cena evoluiu e tornou-se mais inclusiva, embora ainda existam problemas e setores resistentes às mudanças.

Ele ressaltou que os movimentos culturais não existem isoladamente e refletem as transformações, conflitos e debates presentes na sociedade.

Marc também comentou que encontrou um ambiente acolhedor no Keep It True, onde observou uma sensação de comunidade e respeito à diversidade.

Para o músico, falar sobre esses assuntos continua necessário enquanto existirem pessoas sendo excluídas ou constrangidas dentro da cena.

A conexão que somente o underground proporciona

Marc encerrou parte da reflexão destacando a relação criada entre bandas, artistas e público no circuito independente.

Segundo ele, uma apresentação para milhares de pessoas não garante o mesmo impacto emocional que uma banda local pode provocar em alguém que acompanha sua trajetória de perto.

O próprio vocalista citou grupos de Belo Horizonte que marcaram sua formação musical e continuam ocupando um espaço especial em sua coleção e em sua memória.

Para Marc, essa proximidade é uma das maiores forças do underground.

“Você pode tocar para milhares de pessoas e não atingir ninguém. Esse contato direto, capaz de transformar a vida de alguém, é algo que o underground consegue criar”, concluiu.

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